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HIPOCONDRÍACO DE CARTEIRINHA


Seu Praxedes não aguenta mais ser chamado de hipocondríaco de carteirinha.

Ele tem andado muito irritado lá na sua comunidade porque tem sido tratado por algumas pessoas por esse nome, que segundo ele, é muito feio e, de cabeça quente, saiu à procura de uma explicação que lhe ajudasse a esclarecer tudo isso.

Procurou um amigo letrado que mora numa comunidade vizinha e ele disse sorrindo que esse “nome feio” tem sua origem noutro “palavrão” chamado hipocondria. Insatisfeito com essa resposta, que segundo ele esse seu amigo não lhe disse muita coisa, Seu Praxedes também quis saber de mais detalhes sobre o significado dessa segunda palavra.

Tentando acabar com a curiosidade “doentia” do lavrador, o amigo letrado disse que a Psicopatologia, identifica a hipocondria como a focalização compulsiva do pensamento e das preocupações sobre o próprio estado de saúde, frequentemente acompanhada de sintomas que não podem ser atribuídos a nenhuma doença orgânica.

Seu Praxedes quase entrou em parafuso com essa explicação técnica de seu amigo. E a situação dele se agravaria ainda mais se soubesse que “doença”, esse mal invisível que lhe aflige há muito tempo, no conceito da medicina e de outras ciências da saúde, significa um distúrbio das funções de um órgão, da psique ou do organismo como um todo e está associado a sintomas específicos.

O ideal seria que esse seu amigo também explicasse para ele o que é saúde, essa “coisa” que ele deseja conseguir justamente nos momentos em que faz uso dos seus remédios e desta vez o homem das explicações difíceis começou dizendo para ele que de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS) “saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doenças...”, mas desistiu na metade do caminho.

Ainda bem que Seu Praxedes não sabe de nada disso, pois o risco de voltar a se empanturrar de remédio seria bem maior e com certeza seu desejo de gastar na farmácia local aumentaria, em pelo menos 50% (cinquenta por cento).

O farmacêutico local, por sua vez, disse que desde que se entende por gente, a rotina de vida do Seu Praxedes tem sido essa: lutar contra doenças, dores e achaques, o que tem lhe possibilitado gastar uma parte de sua renda mensal com a compra de remédios e medicamentos.

Disse, ainda, que os pais do Seu Praxedes também agiam dessa maneira. Na verdade, lá na comunidade onde ele vive essa é uma herança cultural passada dos pais para os filhos e, inevitavelmente, todos fazem uso de suas “carteirinhas” até para receberem remédios de graça do governo - concluiu.



Germano Correia da Silva
Enviado por Germano Correia da Silva em 19/12/2010
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