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CONVERSA AO PÉ DO OUVIDO (II)


Aquele bate-papo entre pai e filho teria se aprofundado noite adentro não fosse a chegada do sono para ambos os interlocutores. Assim, para que o fio da meada não se perdesse no tempo e no espaço, a conversa fora retomada do ponto onde eles pararam na noite do dia anterior.

De certa forma, o genitor tentaria deixar claro para o seu primogênito, de uma vez por todas, que se em algum momento ele lhe pareceu omisso na sua maneira de proceder não o fez por querer e sim forçado por outras circunstâncias alheias à sua vontade e assim se expressou:

- Sabe meu filho, por mais que eu tenha me esforçado durante toda a nossa convivência eu não tenho conseguido ser o pai que tanto sonhei e, na qualidade de pai "quase presente", prometo, de agora em diante, estar mais presente em todos os dias de sua vida e de seus irmãos. E aqui vai o meu conselho: aconteça o que acontecer no decorrer da vida de vocês, procure dar uma atenção maior para com os filhos de vocês e, com certeza, ouvirão deles essa mesma pergunta reiteradas vezes:

- “Meu velho e minha velha, o que vocês gostariam de ganhar de presente?” E, ali, de uma maneira bem natural, com certeza, vocês irão dizer para eles:

- "Filhinhos, não precisamos de presente composto por coisas materiais... Nosso maior presente é a presença física de vocês!”

O garoto ouviu atentamente aquela história contada por seu pai, com todo aquele requinte de emoção recolhida, assentindo durante todo o tempo com um balançar de cabeça, sendo que ao final despediu-se dele, meio pensativo, anunciando que iria dormir.

Já no quarto, deitado na sua cama, o garoto não entendeu o "porque" de seu pai ter ficado tão preocupado com todas aquelas lembranças, procurando enfatizar a qualidade dos presentes que foram dados para a mãe e o pai dele. Era tudo muito curioso, entretanto, por uma questão de respeito e obediência, achou por bem não fazer nenhuma pergunta naquele momento. Deixaria tudo para o dia seguinte quando o estado emocional do velho estivesse menos à flor da pele.

Na noite do dia seguinte, quando retornou da escola, procurou o seu pai para tentar rever, "de fio a pavio” aquele tema tão interessante e aproveitaria a oportunidade para lhe fazer algumas perguntas que ficaram presas na garganta na noite anterior.

Ali, na hora do jantar, ante a presença de sua mãe, Dona Verônica, e dos seus dois irmãos mais moços, Moisés e Natanael, assim se expressou:

- Meu velho, adorei aquele bate-papo de ontem à noite, mas senti que você esteve durante todo o tempo querendo me passar uma mensagem positiva a respeito da forma como os filhos devem absorver os ensinamentos recebidos dos seus pais, mas uma coisa me deixou bastante apreensivo:

Tenho acompanhado as suas histórias a respeito de sua infância e também tenho percebido que em todos os momentos que comentou a respeito de suas lembranças, você tem se emocionado muito, principalmente quando se refere aos presentes que você e meus tios compraram para dar aos meus avós nos aniversários deles e nos dias das mães e dos pais, respectivamente. Curiosamente, você nunca nos falou a respeito dos seus amigos e/ou eventuais inimigos. Aproveitando o ensejo e o fato de estarmos reunidos em família, eu gostaria de lhe fazer uma pergunta:

- Há alguma razão especial para você ainda não nos ter falado desse assunto?

O camponês Domingos ficou meio surpreso com a observação feita pelo seu filho num momento como aquele. O garoto tinha razão, na verdade, ele havia tratado apenas das lembranças de momentos vividos relacionados às figuras maternas e paternas e em nenhum instante se referiu às figuras de seus amigos ou de eventuais inimigos. Por quê? Haveria realmente alguma razão especial para tal omissão?

O rosto do camponês ficou bastante enrubescido após a indagação feita pelo seu filho. Em princípio, ele imaginou que não era a hora propícia para responder aquela indagação. Afinal, o que um garoto naquela idade entenderia de amizades e/ou inimizades?

Alguns segundos mais tarde, já refeito do susto, ele parou um pouco, analisou friamente a situação e percebeu que seu garoto estava coberto de razão. Restaria apenas e tão somente respirar fundo, uma vez que não conseguira, de pronto, esclarecer aquela questão meio embaraçosa.

A alternativa mais viável para ele seria acalmar-se e dar sequencia àquela conversa familiar:

- Meu filho, são muitas as lembranças que cada um de nós tem guardadas no âmago da nossa alma e nem sempre elas afloram de uma forma muito evidente nos momentos em que pretendemos fazê-lo, a exemplo dessa noite passada ou de outras oportunidades anteriores que ora não me recordo.

- É claro que cada um de nós precisa de mais tempo para lembrar e, consequentemente, relatar para os nossos entes queridos assuntos dessa natureza, mas a correria do mundo moderno tem estado de alguma forma adiando esses momentos.

- Meu filho, num primeiro momento eu posso lhe assegurar que quando presenteamos amigos (as), namorados (as) e outras pessoas menos próximas, sentimos uma sensação um pouco diferente daquela que sentimos quando presenteamos os nossos entes queridos, em especial, pais e filhos, mas de uma maneira geral eles também fazem parte do nosso convívio fraterno.

Um grande cantor e compositor da nossa música popular brasileira já dizia que "amigo é coisa pra se guardar do lado esquerdo do peito...”.

- Quanto aos meus eventuais inimigos, os quais ora desconheço, eu gostaria muito de poder torná-los meus verdadeiros amigos. A nossa vida terrena é tão passageira que não vale a pena cultivarmos inimizades, não importa qual seja o seu motivo. Precisamos, para que a nossa presença neste mundo em que vivemos tenha algum sentido, ter mais amigos, mais pessoas com quem possamos dividir as nossas alegrias, as nossas vitórias, sobretudo as nossas tristezas - afirmou.

Repentinamente a campainha da casa deles tocou, interrompendo momentaneamente aquela conversa tão interessante, não muito rara entre pais e filhos nos dias em que ora vivemos.

Naquele momento o patriarca teve de adiar o andamento de sua comunicação para receber a visita de um velho amigo da família, prometendo retomar a conversa numa outra oportunidade, assim se desculpando perante o seu primogênito:

- Meu filho, o nosso bate-papo está sendo muito proveitoso, mas eu lhe prometo que depois falarei um pouco mais a respeito do amor, da dedicação e do respeito mútuo que nós, pais e filhos, temos de ter uns para com os outros, assim como falarei da sensação e da importância que representa os presentes na vida das pessoas e que, de vez em quando, nós seres humanos, deveríamos trocar, evidentemente.

O garoto, por sua vez, sentiu que aquele seu questionamento tinha surtido o efeito desejado. Ele tinha conseguido, mais uma vez, deixar o seu pai emocionado, um fato até certo ponto raro naquela vida agitada em que ambos estavam vivendo.
 
Naquele momento o que ele mais precisava era agradecer, de alguma forma, ao seu velho pela oportunidade e ficou ensaiando o que diria assim que ele tivesse outra.

A conversa entre o pai dele e o amigo demorou pouco, sobrando de certa forma algum tempo no decorrer daquela noite, o suficiente para que, após a saída do visitante, a conversa interrompida fosse retomada e o garoto não perdeu tempo:

- Meu velho, da mesma forma que você se emocionou ao se referir às lembranças vivas de sua mãe e de seu pai nos festejos de aniversários deles e do dia das mães e dos pais, respectivamente, eu e os meus irmãos também nos emocionamos quando temos a oportunidade de comemorar essas mesmas datas e sabemos o quanto isso representa para nós.

- Analisando bem as figuras paternas e maternas das quais faço parte, posso imaginar você e seus irmãos nos dias atuais, também se reunindo para fazer aquela "vaquinha" com o intuito de comprar presentes, assim como eu e meus irmãos nos reunimos com o mesmo propósito. E aproveitando o ensejo, gostaria de lhe pedir desculpas pela forma como lhe questionei a respeito da intensidade de sua emoção.

O garoto ficou meio curioso com tudo o que tinha escutado do seu pai e bastante comovido com o teor da mensagem recebida, disse-lhe:

- Velho, meu querido velho, ninguém melhor que você e a mamãe para representarem simultaneamente estes seres humanos que estão sempre de peito e coração abertos, cheios de amor pra dar. Reconheço que você enquanto pai tem sido uma verdadeira mãe e que a mamãe enquanto mãe, na maioria das vezes, tem conseguido a mesma reciprocidade nas suas ações. Juntando isso e mais um pouco de tudo o que vocês representam para mim e para os meus irmãos, eu não tenho mais nada a reclamar da vida. 

- Meu velho, assim que você puder e quiser, poderá me procurar para batermos mais um desses papos que, sem nenhuma sombra de dúvidas, tem muito a ver com a beleza da figura humana que você o é. Portanto, ficarei lhe esperando e serei todo ouvido e de uma coisa você pode ter certeza: estarei de peito e coração abertos, cheios de amor e atenção pra dar.


Germano Correia da Silva
Enviado por Germano Correia da Silva em 21/12/2010
Alterado em 16/02/2011


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