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SAIDA ANUNCIADA
 
Faz algum tempo que o cidadão Jô Formigon, um camponês nascido e criado na comunidade rural denominada Cafundós de Judas, está vivendo um dilema pessoal e, sobretudo moral, sem precedentes.
Cidadão pacato e afeito à lida da vida rural que o era antes de entrar para o campo da política partidária, de lá para cá, por causa dos inúmeros compromissos assumidos, durante e pós campanha eleitoral, sua vida, longe do seu trabalho campestre, tornou-se um verdadeiro desassossego.
Ele tem pensado seriamente em deixar de ser, o mais breve possível, o mais novo representante da política partidária da classe camponesa de sua região, já que tempos atrás, um conterrâneo seu também seguira esse mesmo caminho.
Por razões alheias à sua vontade, mas sendo algumas delas irrefutáveis para a confirmação de sua saída, ele está aguardando apenas o término de seu mandato que coincidirá, evidentemente, com a chegada das próximas eleições para sacramentar sua decisão.
Há quem diga que ele tem se sentido muito desapontado em face dos atos e feitos que os “homens do povo” comuns e sem experiência assim como ele, têm praticado e assumido, compulsoriamente, para se manterem ativos em meio à essa selva que abriga leões famintos à procura de ovelhas desgarradas para lhes servirem como suas “refeições” diárias. Sem condições de servir bem a sua gente, como o prometera durante a campanha eleitoral, e por não se sentir à altura do cargo eletivo que ora ocupa, certamente, não tentará uma reeleição no pleito vindouro.
Segundo sua avaliação, nessa sua curta vivência como neopolítico que o tem sido e durante o desenrolar dos altos e baixos dessa sua primeira gestão, se estivesse na condição de um caçador numa floresta, teria de matar um leão por dia para tentar sobreviver e, em tom de pilhéria, disse sorrindo:
 - É claro que se eu agisse dessa maneira em pouco tempo seria apanhado pelas poucas autoridades florestais que ainda restam cuidando da preservação da nossa fauna e flora, mas essa seria a única saída honrosa que me restaria para manter-me ativo e com os pés no chão, politicamente pensando.
Os seus poucos seguidores e alguns amigos mais próximos já comentam, em segredo, que sua decepção é tão flagrante em meio a essa seara da política partidária em que ele se encontra metido que, se depender dele e de sua família (esposa e filhos), enquanto vida Deus lhe der, jamais se candidatará a outro cargo eletivo.
Seja lá o que for que ora incomoda o neopolítico Jô Formigon, além disso que o povo suspeita, uma coisa é certa: ele fará de tudo para sair ileso e sem qualquer mácula que o inclua no rol desses “homens do povo” que se corromperam e que ainda se corrompem facilmente para, desta forma, se manterem “vivos” no meio de outros que já estão nessa lida há já algum tempo.
Particularmente falando, acredito que Jô Formigon entrou para o mundo da política partidária por uma atitude impulsiva de sua parte e, quando se deu conta do mal que tinha causado a si mesmo, resolveu “chutar o balde” e, sem mea culpa e/ou mágoa, está decidido a voltar para o lugar de onde nunca deveria ter saído.
Destarte, pelo pouco que o conheço, em breve ele será visto montado no seu cavalo alazão, cavalgando entre uma comunidade e outra de sua região, conversando com sua gente mais humilde, sem se envolver com assuntos da política partidária e sem ter de dar satisfações diárias pelos seus atos e feitos atinentes ao exercício dela.
- Bom retorno, meu caro Jô Formigon, a vida e a lida do campo lhe aguardam de braços abertos. Seu lugar é do lado de cá, onde os riscos que você poderá correr no seu dia a dia serão bem menos intensos e menos complicados que esses que você ainda estará sujeito enquanto permanecer do lado de lá - disse o representante religioso da sua comunidade, como se fosse um aconselhamento.
Germano Correia da Silva
Enviado por Germano Correia da Silva em 21/06/2020
Alterado em 22/06/2020
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