

SÓ NA MOLEZINHA...Seu Zé Velho era um daqueles homens trabalhadores apegados às coisas da terra, que poderia ser considerado como um trabalhador braçal por excelência. Começou a trabalhar muito cedo e ficava injuriado quando via algum homem de seu convívio rural procurando desculpas para não cuidar da área de terra cultivável que Deus o tinha dado, deixando de fazer naturalmente suas plantações, assim como arrumando pretextos os mais variados para deixar de cuidar dos animais domésticos que porventura possuíssem. Certa vez, em conversa com amigos de sua comunidade ele disse que percebia que uma boa parte dos homens que vivia na sua região naquela época tendia a se comportar como um ser indolente por natureza, e ali, naquele seu momento de prosa, foi bem mais além dizendo: - Se esses homens pudessem ou não tivessem quem fizesse para eles, provavelmente nem a própria alimentação diária preparariam. Os que tivessem bons recursos financeiros, decerto, viveriam da compra de comidas prontas, daquelas refeições rápidas, conhecidas como marmitex ou como quentinhas, conforme sua região, mas não moviam sequer um pé na direção de suas cozinhas. Seu Zé Velho morreu com quase cem anos de idade, mas um mês antes de morrer ele contou um fato bastante curioso ocorrido na sua comunidade, envolvendo trabalhadores rurais e o respectivo cultivo das propriedades que as tinham como suas. Segundo ele, ali naquela comunidade rural todos os jovens do sexo masculino desde muito cedo eram incentivados pelos seus pais e/ou responsáveis a cultivar alguma porção de terra que eles tivessem à sua disposição. As meninas, em geral, não podiam fazer parte desse grupo de jovens produtores iniciantes e se encarregavam de cuidar dos afazeres caseiros na companhia das matriarcas das famílias ali existentes. Aquilo era uma forma de iniciação ao trabalho rural eminentemente produtiva, visando à preparação desses jovens para o trabalho braçal antes de ingressar na idade adulta. Era mais que uma espécie de rotina cultural daquele lugar. Muitos deles, sobretudo os homens feitos se sentiam mais úteis trabalhando, diferentemente de outros jovens que só queriam viver só na molezinha, sem fazer algo útil e proveitoso para preencher o seu dia a dia. Alguns daqueles jovens, mormente aqueles cujos pais poderiam pagar para eles irem estudar numa escola fora daquela comunidade rural, prosseguiam com seus estudos de modo mais avançado. Já aqueles que eram oriundos de famílias menos abastadas financeiramente falando, estudavam menos ou quase nada e sem alternativas viáveis de trabalho uma boa parte deles ficava esperando o progresso chegar na sua região. Outros jovens, fossem eles capacitados profissionalmente ou não, não conseguiam esperar e debandavam para um grande centro urbano à procura de melhores dias e se sobrasse tempo tentariam estudar, ao passo que outros, sem qualquer perspectiva de vida, ficavam ali naquele reduto rural só na molezinha, de boca aberta e olhos piscando, esperando o tempo passar e, na maioria das vezes, passavam parte do seu tempo, geralmente ocioso, é claro, se maldizendo da falta de sorte... – finalizou. Germano Correia da Silva
Enviado por Germano Correia da Silva em 13/11/2025
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